Manifestamos nosso pesar pelo falecimento do estudante Ricardo Lima da Silva
Enviamos especialmente para a família, amigos, moradore(a)s do CRUSP, colegas, funcionários(as) e docentes da Geografia e da FFLCH a nossa solidariedade e desejo de que tenham acolhimento neste momento em que a perda e o luto se apresentam tão doloridos.
Junto com nosso carinho e pesar registramos também que é preciso que façamos uma análise crítica dos contextos de vulnerabilidade enfrentados por nossos estudantes na moradia estudantil e na Universidade.
Marcadores sociais da diferença e questões interseccionais, como classe, raça, gênero, geração precisam sair de nossas teses, dissertações e livros e buscar a espaços no cotidiano da vida universitária de modo que as diferenças deixem de ser desigualdades. O racismo estrutural permeia todas as instituições, inclusive a USP, e precisa ser visibilizado para ser transformado.
Para além desta reflexão, guardaremos com carinho a memória do estudante Ricardo, traduzida nas belas palavras da doutoranda do ProMuSPP Jacqueline Jaceguai que, por ter o privilégio de conviver com Ricardo, nos representa nesta singela homenagem que deixamos para ele.
Ricardo – texto de Jacqueline Jaceguai (Doutoranda do ProMuSPP)
Ricardo era um rapaz que se destacava pela sua inteligência contumaz, tinha um senso crítico apurado diante das questões sociais, políticas e do avanço científico. Como estudante negro entendia muito bem como o racismo nos consome e aniquila a nossa existência. Participou do “novembro negro” na EACH em 2019 e fez excelentes contribuições junto às mesas de debate formadas por lideranças do movimento negro. Salientou o quão difícil é vencer a invisibilidade social, descrédito científico e a pobreza diante do racismo estrutural vivido em todos os espaços, inclusive no espaço universitário.
Nas relações interpessoais, sempre foi prestativo, solidário e preocupado com o bem estar coletivo. Em momentos delicados tinha uma saída inusitada para situações difíceis e, com grande dose de bom humor e leveza de espírito, pensava formas de enxergar o mundo através de lentes que vão para além do entendimento pragmático que a academia insiste em nos enquadrar.
Assim, como tantos outros estudantes pretos, Ricardo era um jovem sonhador que buscava um mundo melhor. As agruras sociais e as injustiças sempre foram pontos de atenção para ele, e por isso aproximava-se das pautas e reivindicações importantes da comunidade a qual pertencia e representava.
Nosso amigo Ricardo partiu.
Nós, que estamos na universidade, sabemos que a defesa da permanência de pretos pobres dentro da universidade sempre será um ato político, assim como a ausência dos mesmos será pauta de reivindicação! Seguiremos para além do imediato, na luta por políticas de permanência estudantil, qualidade de vida e bem-estar social voltadas para a comunidade preta, pobre e historicamente negligenciada. Ao Ricardo desejamos que “Olorum o receba de braços abertos” e aos que ficam desejamos que as dores sejam curadas e seguimos na certeza de que a luta por dias melhores não será em vão.