“Respiro, logo existo”: reflexões sobre o bem-viver em tempos de poluição do ar

Na semana do dia 9 de setembro, a cidade de São Paulo registrou a pior qualidade do ar, quando comparada com outras 120 metrópoles mundiais, segundo ranking que registra as condições da poluição em todo o planeta. As estações de medição da companhia estadual de meio ambiente (Cetesb) apontaram que a qualidade do ar nunca esteve tão ruim.

A qualidade do ar deve ser um indicador que reflete a qualidade de vida na cidade mais rica do País, embora, muitas vezes, esse critério não entre nas avaliações formais de desenvolvimento e progresso social de um município. Basta lembrarmos da célebre expressão do filósofo e psicólogo norte-americano William James (1842-1910) que subverte a máxima idealista ao afirmar: “Respiro, logo existo”. As condições de nossa respiração revelam as condições de nossa existência.

Em grande medida, a fumaça que cobriu a maior metrópole do Hemisfério Sul não é diretamente produzida in loco, mas resultado de queimadas que acontecem no entorno e em regiões mais distantes do País, como o Pantanal e a Amazônia. A poluição também foi mantida pelo clima mais seco, que é típico por aqui nesta época do ano, mas que tem nos parecido cada vez mais intenso devido ao desmatamento persistente em todo o País e à falta de suficiente cultivo de áreas verdes no contexto urbano.

A esse respeito, em 2016, indígenas de São Paulo atuaram na construção do projeto de lei denominado Cinturão Verde Guarani. O objetivo era assegurar políticas públicas que valorizassem o modo de vida e concepções indígenas de cuidado socioambiental e espiritual. Em todo o mundo, há uma sobreposição entre áreas que preservam a biodiversidade e os territórios indígenas. No entanto, diferenças entre as concepções indígenas e científicas criam barreiras para colaborações significativas, dada a crença amplamente difundida de que o conhecimento científico seria superior a outros saberes.

Esse é mais um motivo pelo qual os movimentos indígenas têm pautado o acesso e permanência nas universidades: construir o reconhecimento e legitimação de suas formas de conhecer, de modo a superar os estereótipos presentes de forma explícita ou velada em concepções colonialistas de ciência.

Por exemplo, para se equiparar à diversidade étnica expressa no último censo do IBGE, a USP precisaria ter, pelo menos, 43 docentes indígenas, 107 servidores técnico-administrativos e 841 estudantes. A presença de pessoas de diversas origens tende a enriquecer a universidade com compreensões de mundo e soluções potentes para velhos problemas. Dentre os quais, problemas que resultaram na poluição que contaminou o ar de São Paulo.

Focalizando a necessidade de uma proposta mais contundente para ingresso e permanência indígena na Universidade, em agosto aconteceu na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin e na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, o seminário Presença e Ausência Indígena na USP, que contou com a participação de diversos acadêmicos indígenas e parceiros. O evento teve apoio da Pró-Reitoria de Inclusão e Pertencimento, do Centro de Estudos Ameríndios, do Museu de Arte Contemporânea, do Movimento Levante Indígena na USP e do serviço Rede de Atenção à Pessoa Indígena do IP-USP.

A poluição dos últimos dias nos mostra que a qualidade do ar e de vida de um local não pode ser visada em função de um recorte isolado de uma área geográfica de um município ou estado. Pelo ar, sentimos os efeitos da floresta que é queimada além do horizonte para produzir parte da riqueza drenada para os centros econômicos do País e do exterior.

Desde diálogos com os saberes indígenas, aprendemos que a concentração de riqueza e de gente, com suas necessidades humanas, impacta a floresta, que é devorada pelo crescimento insustentável do modo de vida moderno e contemporâneo.

Nesse ensejo, fica evidente que cuidar da qualidade do ar e das vidas existentes supõe redistribuir os impactos da presença de cada ser no mundo, de forma a torná-los menos intensos e destrutivos. Supõe descentrar a intensidade das atividades necessárias ao alcance de um objetivo rigidamente estabelecido, viabilizando a circulação das vidas e seus recursos por todo o planeta.

A movimentação do ar e das águas depende de um equilíbrio delicado que inclui a movimentação das pessoas. Quando feita de modo cuidadoso, desafia as fronteiras artificiais da geopolítica e dos interesses privados de apropriação da Terra.

Por: Danilo Silva Guimarães, Jornal da USP, 04/10/2024