Quando eu era estudante de graduação no Instituto de Psicologia da USP, em certa ocasião, escolhi, voluntariamente, ser participante de uma pesquisa sobre percepção de cores. Já faz muito tempo, não me lembro os detalhes. Não saberia precisar quais eram os objetivos da pesquisa, nem sei se naquela época tínhamos acesso ao Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (o famoso TCLE), que os debates sobre ética em pesquisa convencionaram no âmbito da construção de conhecimento científico no Brasil. Lembro da tarefa que me foi proposta. Consistia em ordenar pequenos objetos coloridos, em um gradiente de transição de cores: por exemplo, do azul ao roxo, do verde ao amarelo, não sei se também do preto ao branco etc.
A questão é que a variação de tons era tão pequena, que, por vezes, não dava para saber bem qual de dois objetos era mais azul do que roxo, ou mais verde do que amarelo, provocando sentimentos de ambiguidade e ambivalência na tentativa de realizar a tarefa proposta pela pesquisadora. Nas situações mais insolúveis, tinha que dar um chute, fazer uma aposta de ordenação e arriscar. Erro aqui seria uma incoerência entre a minha avaliação e a suposta cor real, talvez, segundo padrões físico-químicos da composição do objeto. Vale lembrar que o padrão de cores poderia mudar, por exemplo, conforme o tipo e intensidade da luz ambiente e outras variáveis que considero terem sido experimentalmente controladas naquele momento.
Passo para outra cena experimental. Estudos clássicos de conformidade apontam que pessoas tendem a perceber ou expressar sua percepção de forma diferente quando em contextos de pressão social. O psicólogo polaco-estadunidense Solomon Asch em seus estudos da década de 1950 confrontou a percepção de pessoas com a unanimidade do grupo social experimentalmente treinado e conversou com os participantes. O desacordo provocado entre o grupo e a pessoa isolada impactou a resposta da pessoa isolada diante de uma tarefa simples: comparar o tamanho de uma linha com o de outras três, que poderiam ser maior, menor ou do mesmo tamanho. O estudo aponta, entre muitas coisas, que para entrar em conformidade com o grupo, as pessoas tendem a contradizer a sua percepção da realidade.
Em outros contextos, é a própria convivência em condições socioambientais que molda a percepção do mundo. Psicólogos e antropólogos no início do século 20 notaram que certas comunidades de tecedores conseguiam contrastar com muita sofisticação, tons de cores diversos que pessoas do contexto urbano não conseguiam enxergar. Haveria, aí, um treino social, comunitário e de exposição ambiental que promove a habilidade de distinguir e nomear variações experimentadas no mundo de forma distintas. Assim, acabam por configurar mundos sensíveis distintos para diferentes pessoas e comunidades, como no clássico exemplo da diversidade de palavras que certos povos indígenas que vivem nas regiões polares têm para nomear tons de branco, produzindo distinções relevantes para o bem-viver em seu bioma.
Em 27 de março de 2025, o Instituto de Psicologia da USP recebeu a professora Joana Guimarães, reitora da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB), primeira mulher negra reitora de uma universidade federal no Brasil. Dentre muitos aspectos relevantes trazidos por ela em sua palestra, destaco o momento em que ela ressalta o papel das bancas de heteroidentificação como representantes do olhar social, a partir do qual se distinguiria quem teria a aparência de alguém que sofre racismo no Brasil. A professora destacou, ainda, que tal percepção social é diferente em cada região do país, dada a sua dimensão territorial e diversidade sociocultural.
A professora trouxe a complexidade e a delicadeza de estar em uma posição de representante do olhar social. Como visto, desde a percepção de cores e formas simples, estamos sujeitos a ambiguidades e ambivalências, contradições e conflitos diante de si e do grupo social. O pertencimento socioambiental molda a capacidade pessoal e coletiva de perceber e nomear as experiências, sendo a percepção socialmente impactada pela conformidade social, entre tantas outras coisas. O que dizer da posição de julgar alguém pela aparência?
Questionamentos das avaliações realizadas pelas bancas de heteroidentificação se ampliam em todo o Brasil, onerando as instituições, a sociedade brasileira e as pessoas que precisam ser acolhidas pelas ações afirmativas. Em defesa das bancas, entendo a necessidade de abertura reflexiva para superação da ideia de que, a partir do dado no presente, a imagem ou a aparência atual, se pode determinar a história, o passado e o futuro. As percepções não são neutras. O caminho do diálogo que leva em conta a não subordinação da reparação histórica à aparência é relevante, ao menos, quando há incompatibilidades entre o auto e heterojulgamentos.
Por Danilo Silva Guimarães, articulista do Jornal da USP e professor do Instituto de Psicologia da USP, 6/6/2025
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