Exposição virtual revela sentimentos surgidos na pandemia

“Meu marido vinha atrás de mim e, quando viu o pudim no chão, me perguntou o que aconteceu. Eu, com a maior naturalidade, respondi: ‘O Bolsonaro, ué’. Ele não entendeu e eu repliquei: ‘Você não leu no jornal que o Bolsonaro agora invade a casa das pessoas para derrubar os pudins no chão?’. Ele ficou indignado, dizendo que o presidente não podia invadir a nossa casa.”

Esse é um dos sonhos mostrados na exposição virtual Diários da Pandemia: Um Dia Por Vez, lançada no dia 3 de junho passado pelo Museu da Pessoa, de São Paulo, e pela School of Fine and Performing Arts da Universidade Fontys, da Holanda, com apoio do Consulado Geral dos Países Baixos no Brasil. A mostra apresenta relatos de brasileiros e holandeses sobre o seu cotidiano durante a pandemia de covid-19. Traz também a descrição de sonhos coletados na pesquisa Inventário de Sonhos 2, coordenada – entre outros especialistas – pelo professor Paulo César Endo, do Instituto de Psicologia da USP. São sonhos que mesclam o real e a imaginação e se relacionam com o cenário político e social. Sonhos que testemunham realidades durante a pandemia.

 

Lucas Lara, do Museu da Pessoa – Foto: Reprodução/LinkedIn

Centenas de histórias brasileiras e holandesas anônimas foram analisadas para compor a exposição. De muitas delas é difícil identificar a origem, pois são expostos sentimentos parecidos. “Por isso também mantivemos o anonimato, pois cada uma dessas histórias poderia ser nossa”, afirma Lucas Lara, diretor de Museologia do Museu da Pessoa. Ele explica que, com a pandemia, habitantes de diferentes lugares do globo estão enfrentando as mesmas dificuldades. “A exposição traz à tona sentimentos e momentos que foram vividos por alguém que não conheço, mas que poderiam ser meus. O objetivo da exposição é, de uma forma mais profunda, mostrar nossa humanidade”, diz o diretor.

As histórias não se referem apenas às sensações provocadas pela pandemia, mas também à situação política e social. Os sonhos, principalmente, “estão sempre ligados com a tentativa e a possibilidade de representação da catástrofe”, conta o professor Paulo César Endo. Em outras pesquisas, Endo analisou sonhos de pessoas que foram presas e torturadas durante a ditadura militar brasileira (1964-1985) e de sobreviventes e familiares da guerrilha do Araguaia. Ele explica que esses estudos  permitem conhecer de maneira mais aprofundada as catástrofes que atingem as pessoas e seu psiquismo. Ele defende que só consegue alcançar esses problemas em profundidade com a análise do material onírico.

 

 O professor Paulo César Endo, do Instituto de Psicologia da USP – Foto: IEA/USP

A primeira parte da pesquisa Inventário dos Sonhos foi realizada entre 2018 (período das eleições para a Presidência da República) e 2019. Endo lembra que, na época, muitas pessoas se sentiam ameaçadas pelo governo em ascensão, por vários motivos: porque eram contrárias às posições desse governo, eram mulheres, pertenciam à comunidade LGBTQIA+ ou eram negras. “Elas começaram a ter insônia e episódios de ansiedade e algumas sonhavam com essa experiência”, destaca o professor. “Esses sonhos foram coletados e geraram um material muito importante.” O objetivo é utilizar esse material onírico como fonte de pesquisas em psicanálise, psicologia, saúde mental e demais áreas.

Depois dessa experiência, Endo e outros pesquisadores do projeto tiveram a ideia de coletar sonhos durante a pandemia, na pesquisa que foi chamada Inventário dos Sonhos 2. Logo nos primeiros dias, eles receberam cerca de 80 sonhos. A coleção atingiu a marca de 1.200 sonhos coletados. A cada entrevistado, foram feitas duas perguntas: “Você poderia narrar um sonho pessoal ocorrido a partir do dia 1º de março de 2020 e que você associaria aos acontecimentos ligados à pandemia do coronavírus?” e “Caso tenha pensado, associado ou interpretado algo sobre esse sonho, poderia relatar seus pensamentos, associações e interpretações?”. Alguns desses relatos foram escolhidos para constituir a exposição Diários da Pandemia: Um Dia Por Vez.

“As experiências nunca são absolutamente pessoais e individuais e nunca totalmente sociais. O sujeito sempre vive as suas experiências numa posição na qual ele é impactado por todas as influências e os elementos do contexto, da sociedade e do país em que o sujeito vive”, ressalta Endo.

“Os sonhos são os sismógrafos do tempo presente”, diz Endo, citando frase da jornalista e escritora alemã Charlotte Beradt (1907-1986), autora de Sonhos no Terceiro Reich, obra sobre sonhos durante o período de ascensão do nazismo na Alemanha. O professor observa que o sujeito tenta lidar com os seus próprios conflitos e dilemas, que estão tanto no psíquico como na dimensão sociopolítica, como uma “caixa de ressonância” para os grandes abalos sísmicos sociais, políticos e culturais. O estudo informa a que nível de profundidade esse impacto interfere na vida das pessoas.

A pesquisa é importante para entender o que os sonhos expressam e o que pretendem expressar. Paulo Endo considera que Inventário dos Sonhos 2 pode ser reconhecida como um testemunho do tempo presente, diferente da história oral e da autobiografia. “O testemunho é a tentativa de narrar o trauma, uma maneira de compreender os ambientes dos traumas propriamente ditos e dos esforços que as pessoas fazem para lidar com as situações traumáticas”, expõe Endo.

 

“Sonhos são testemunhas do presente”, afirma o professor Paulo César Endo – Reprodução/Museu da Pessoa

Para Lucas Lara, do Museu da Pessoa, expor e preservar esses relatos é uma forma de valorizar histórias de vida como fontes de conhecimento, trabalhando para uma democratização do acesso à memória e para a construção de uma história mais diversa e colaborativa. “Qualquer uma das histórias da exposição poderia ser minha e percebo como minhas vivências são também coletivas, como todos nós estamos conectados mesmo sem nos conhecermos. Não estamos sozinhos”, conclui Lucas Lara.

Diários da Pandemia: Um dia por vez fica em cartaz por tempo indeterminado no site do Museu da Pessoa e está disponível para que os visitantes contem suas histórias.

 

Por Jornal da USP