IA na educação para quê?

Legenda: “ChatGPT em nosso cérebro”. A imagem representa um procedimento de eletroencefalografia, no qual além da técnica capturar a ativação neuronal cerebral, aparece uma IA no sinal. (Fonte: autoria própria. Colagem feita com imagens de domínio público usando o canva.com).

Deparamo-nos rotineiramente com os desafios éticos do uso da IA. Contudo, deveríamos estar usando essa tecnologia da maneira que temos utilizado na educação?

Marcos Vinícius Ribeiro Ferreira

Sou uma pessoa queer branca do interior do estado de São Paulo, em estágio inicial dos estudos de Doutorado pelo Programa de Pós-graduação Interunidades em Ensino de Ciências (PIEC-USP). Tenho grande interesse pelas áreas de Educação e Comunicação Científicas, assim como por Filosofia e Sociologia das Ciências.

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Como citar

FERREIRA, Marcos Vinícius Ribeiro. IA na educação para quê?. Revista Balbúrdia, São Paulo, mai. 2026. Disponível em: https://sites.usp.br/revistabalburdia/ia-na-educacao-para-que?/

13 de maio de 2026 | 10:00

O que você acha da inteligência artificial (IA)? Como pesquisador, você já a utilizou para dar aquela arrumadinha em um texto? Como estudante, você já pediu que ela resumisse aquele texto longo que precisava ler? Ou como professor, você corrigiu um texto que quem fez foi o chatbot, qualquer um que seja? Essas são indagações recorrentes na contemporaneidade, onde a IA está aparentemente em tudo. Talvez, mesmo este texto, na verdade, seja escrito por uma… Mas de qualquer maneira, confesso que minha burrice natural é quem produziu as reflexões que trago aqui.

Como professor-aluno-pesquisador, questiono-me se deveria ou não usar as ferramentas de IA. Existem inúmeras, para os mais diversos fins. Mas, ao utilizá-las, estaria eu abrindo mão de aprender a tarefa que, caso contrário, faria com meu próprio cérebro? A troco de quê precisamos acelerar a quantidade de tarefas que conseguimos realizar, com a IA potencializando as entregas de inúmeros resultados que não são verdadeiramente nossos?

Aqui, vou explorar alguns trabalhos recentes os quais me chamaram a atenção. Não pretendo responder como cada um deve eticamente usar a IA. Contudo, considero que alguns pontos são importantes para fazermos julgamentos sobre esse tema. O primeiro deles é que há uma fortíssima tendência em aumentar o uso da IA na sociedade, inclusive na educação. Por qual motivo? Bom, o documento do Departamento de Educação dos Estados Unidos, Inteligência Artificial e o Futuro do Ensino e da Aprendizagem (em tradução livre), apresenta três razões.

A primeira delas é “a IA pode permitir alcançar as prioridades educacionais de maneira mais eficaz, em maior escala e com custos mais baixos” (p. 2, tradução própria). Ou seja, com IA produzimos mais e mais barato, em termos marxistas, aumenta-se a mais-valia que não fica no bolso do trabalhador, lógico.

O segundo motivo é “a urgência e a importância surgem da consciência dos riscos ao nível do sistema e da ansiedade em relação a potenciais riscos futuros. Por exemplo, os alunos podem ficar sujeitos a uma maior vigilância. Alguns professores receiam ser substituídos — pelo contrário, o Departamento rejeita veementemente a ideia de que a IA possa substituir os professores” (p. 3, tradução própria). Ou seja, não é bem um motivo, é mais um “tem cara de cilada, mas acredita aí que vai dar bom”.

Já a última razão apresentada no documento é “a urgência surge devido à escala das possíveis consequências indesejadas ou inesperadas. Quando a IA permite que as decisões instrucionais sejam automatizadas em escala, os educadores podem descobrir consequências indesejadas” (p. 3, tradução própria). Ou seja, “aceita que dói menos”, pois a IA vai ser usada e é seu papel se preparar para evitar as “consequências indesejadas”. Como se pode notar, “ótimas” justificativas que “vão totalmente de encontro” aos princípios da educação.

Pode ser que você ache que olhar um documento oficial do Departamento de Educação dos Estados Unidos não tenha nada a ver com a nossa realidade aqui no Brasil. Conforme também conto em outro texto aqui na revista Balbúrdia, em novembro de 2025, a Secretaria de Estado de Educação de Minas Gerais (SEE-MG) realizou uma falida aula cujo “professor” era o Google Gemini para cerca de 20 mil estudantes no estádio do Mineirão. Sendo isso fato, é possível acreditar que a IA não substituirá o professor? E se o ensino busca a humanização e a emancipação dos sujeitos, seria a IA adequada para humanizar? Ou mesmo, depender da IA para as mais diversas tarefas é emancipar?

Segundo a pesquisa “Seu cérebro usando ChatGPT: acúmulo da dívida cognitiva ao usar um assistente de IA para a escrita de textos” (em tradução livre), pesquisadores do MIT compararam como três grupos de participantes escreviam textos, um deles sem uso de ferramentas de auxílio, outro usando buscadores de informações como o Google, e o terceiro usando IA generativa baseada em grandes modelos de linguagem. O estudo utilizou de análises da neurociência cognitiva com intuito de determinar implicações para a cognição com base no exercício da escrita com e sem o auxílio da IA.

Para tal, foram conduzidas análises de eletroencefalogramas, técnica que mapeia a atividade neural das regiões do cérebro, mostrando que a conectividade neural diminui sistematicamente com o aumento do suporte externo fornecido, indicando menor carga cognitiva e envolvimento mais fraco em processos criativos no grupo de usuários de IA. Além disso, os usuários de IA demonstraram menor capacidade de citar seu próprio trabalho ou lembrar o que haviam escrito, sugerindo uma dependência cognitiva.

O estudo também explorou a adaptação dos grupos ao mudarem de uma situação com auxílio da IA para sem auxílio da mesma, descobrindo que aqueles que mudaram para a escrita sem suporte de ferramentas após o uso da IA não atingiram o mesmo nível de engajamento neural que o grupo que nunca usou IA desde o início, embora ainda exibissem maior ativação e esforço cognitivo sem ela.

Conforme indica a pesquisa, ao longo dos quatro meses de acompanhamento, o grupo de escritores com IA teve um desempenho pior do que o grupo sem suporte tecnológico em todos os níveis de análise, sendo eles, neural, linguístico e de pontuação (pautada em avaliações dos textos tanto por professores humanos, quanto pela própria IA, com base em métricas como ineditismo, conteúdo, linguagem, estilo, estrutura e organização). Dessa forma, o estudo dá evidências preliminares de impactos educacionais negativos do uso da IA como suporte de escrita de textos, indicando uma provável diminuição nas habilidades de aprendizagem textual da população no futuro próximo, devido ao uso massivo dessa tecnologia.

Portanto, parece-me que o uso generalizado da IA pode trazer mais malefícios à educação do que benefícios, isso ao olhar exclusivamente para questões da aprendizagem e desenvolvimento cognitivo. Todavia, para além disso, conforme explorado em uma mesa redonda durante o evento denominado Diálogos Avançados, em outubro 2025, cujo tema eram as Inteligências, por meio de uma perspectiva sociológica a IA está relaciona à temas como a precarização do trabalho, o capitalismo de vigilância, a oligopolização das Big Techs, e a ideologia da liberdade e do empreendedorismo difundida pelo Vale do Silício.

Complementarmente, essas tecnologias são custosas ao meio ambiente, demandando vastos recursos naturais como água (para resfriamento de data centers), energia elétrica e minerais raros, cuja mineração está associada a devastação ambiental de biomas sensíveis. Somado a isso, há o problema da dependência tecnológica em relação às Big Techs que exploram e exportam os dados de usuários brasileiros, minando a soberania digital e tecnológica de nosso país. Dessa forma, utilizar a IA não é apenas um ato inócuo, mas custa grande quantidade de recursos ambientais e em si é um ato político.

Os argumentos tecidos aqui são de forma geral contrários à dependência da IA na educação, ainda mais daquelas dos tecnofacistas do Vale do Silício. Todavia, existem iniciativas de desenvolvimento dessas tecnologias no Brasil, e que também fogem da lógica do capitalismo da exploração de dados. Penso que, em uma educação verdadeiramente crítica e emancipadora, é preciso discutir e ser consciente quanto aos métodos e ferramentas adotadas nas práticas pedagógicas. Portanto, precisamos popularizar o debate sobre a governabilidade algorítmica para que exista real participação popular decisiva sobre essas tecnologias, assim sobre como serão utilizadas na educação.

 

Referências:

DIÁLOGOS AVANÇADOS. Fonte online, disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=9GAu1st1dzQ. Acesso em 24 nov. 2025.

KOSMYNA, N. et al. Your brain on ChatGPT: Accumulation of cognitive debt when using an AI assistant for essay writing task. arXiv preprint. arXiv:2506.08872, 2025.

U.S. DEPARTMENT OF EDUCATION, OFFICE OF EDUCATIONAL TECHNOLOGY. Artificial Intelligence and Future of Teaching and Learning: Insights and Recommendations. Washington – DC, 2023. 67p.